Remoções e Despejos

Se a questão habitacional no Brasil já é grave por si só, a realização da Copa do Mundo 2014 em doze cidades e das Olimpíadas 2016 no Rio de Janeiro agrega um novo elemento: grandes projetos urbanos com extraordinários impactos econômicos, fundiários, urbanísticos, ambientais e sociais. Dentre estes últimos sobressai a remoção forçada, em massa, de 150.000 a 170.000 pessoas (os governos se recusam a dar informações precisas). Dentre os inúmeros casos relatados pelos Comitês Populares da Copa destas cidades, emerge um padrão claro e de abrangência nacional. As ações governamentais são, em sua maioria, comandadas pelo poder público municipal com o apoio das instâncias estaduais e, em alguns casos, federais, tendo como objetivo específico a retirada de moradias utilizadas de maneira mansa e pacífica, ininterruptamente, sem oposição do proprietário e por prazo superior a cinco anos (premissas para a usucapião urbana). Como objetivo mais geral, limpar o terreno para grandes projetos imobiliários com fins comerciais.

Trata-se, via de regra, de comunidades localizadas em regiões que, ao longo do tempo, tiveram enormes valorizações e passaram a ser objeto da cobiça dos que fazem da valorização imobiliária a fonte de seus fabulosos lucros. Mas os motivos alegados para a remoção forçada são, evidentemente, outros: favorecer a mobilidade urbana, preservar as populações em questão de riscos ambientais e, mesmo, a melhoria de suas condições de vida... mesmo que a sua revelia e contra sua vontade. Como pressuposto mais geral, a idéia de que os pobres, coitados, não sabem o que é melhor para eles.

As estratégias utilizadas uniformemente em todo o território nacional se iniciam quase sempre pela produção sistemática da desinformação, que se alimenta de notícias truncadas ou falsas, a que se somam propaganda enganosa e boatos. Em seguida, começam a aparecer as ameaças. Caso se manifeste alguma resistência, mesmo que desorganizada, advém o recrudescimento da pressão política e psicológica. Ato final: a retirada dos serviços públicos e a remoção violenta.

Em todas as fases há uma variada combinação de violações aos direitos humanos: direito à moradia e direito à informação nestas situações caminham juntos, como juntas caminhas as violações que se concretizam.

(trecho extraído do capítulo "Moradia" do Dossiê: Megaeventos e Violações de Direitos Humanos no Brasil)

Artigos relacionados

01Apr 2013
Comunidade do Horto faz ato contra remoção nesta segunda (1/4), às 10h, em frente ao Ministério Público Estadual

Fonte: Comitê Rio de Janeiro | Categoria: Remoções e Despejos

Após a truculenta ação da polícia militar na desocupação da Aldeia Maracanã, outra polêmica reintegração de posse está marcada para a próxima quarta-feira, dia ... Leia Mais
27Mar 2013
Lentes alemãs focadas nos Megaeventos do Brasil

Fonte: Comitê São Paulo | Categoria: Remoções e Despejos

  Estudantes alemães visitaram as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro no mês de março, em busca das transformações urbanas provocadas pela preparação para a ... Leia Mais
27Feb 2013
Largo do Tanque: mais uma remoção sumária para as Olimpíadas do Rio de Janeiro

Fonte: Comitê Rio de Janeiro | Categoria: Remoções e Despejos

Fonte: Comitê Popular da Copa e Olimpíadas - Rio de Janeiro, 24/02/2013. Por Renato Cosentino Depois de 2012 ter sido um ano (eleitoral) relativamente calmo em... Leia Mais
23Feb 2013
Dramas e lágrimas no caminho da Transcarioca

Fonte: Comitê Rio de Janeiro | Categoria: Remoções e Despejos

Fonte: O Dia, 22/02/2013, por Vania Cunha   Avanço das obras do corredor expresso de ônibus articulados (BRT) causa sofrimento no Largo do Tanque, onde morado... Leia Mais