Qua, 17 de Outubro de 2012 18:52

O perverso legado de Paes, por Carlos Tautz

Fonte: oglobo.globo.com, 09/10/2012

A certeza que deriva da reeleição de Eduardo Paes à Prefeitura do Rio é que continuarão as enormes intervenções urbanas pelas quais a cidade passa desde que ele assumiu.

Apresentadas pela imprensa como positivas em si, elas resultam na expulsão branca de pobres e negros de áreas agora valorizadas.

Mas esse fenômeno, ao lado da baixa qualidade da saúde e da educação, é pouco destacado na primeira página, porque no miolo do jornal a publicidade oficial é farta.

A construção de grandes obras a toque de caixa, que sempre abre espaço para uma série de irregularidades, mais uma vez é a praxe.

Com uma suposta necessidade de aprontar o Rio para a Copa em 2014 e as Olimpíadas dois anos depois, qualquer coisa ganha legitimidade, mesmo que só se sustentando com uma campanha publicitária pesada, frequente e permanente – ou seja, caríssima.

Fazem-se obras tremendamente impactantes do meio ambiente e das rotinas das pessoas com licenciamento simplificado – caso da Transcarioca –,sem que alternativas fossem cotejadas.

Colocou-se nesta rodovia R$ 1,6 bilhões em dinheiro do Município, financiados pelo BNDES, para desapropriar na marra milhares de casas por preços vis, desrespeitando o direito dos moradores e desconsiderando o trem e o metrô.

A euforia fabricada pela proximidade dos megaeventos venceu o bom senso e a prudência que precisam orientar a administração pública e seus recursos.

Paes alimentou o canteiro de obras a bilhões do Erário e, com a disparada nos preços dos imóveis, provocou uma verdadeira limpeza social em áreas anteriormente degradadas e habitadas pelos despossuídos.

É ótimo no papel de gestor de um Rio que serve menos para seus moradores e mais para os especuladores.

Botou abaixo a institucionalidade de cinco milhões de metros quadrados do Centro, ali na Gamboa, Santo Cristo e Praça Mauá, agora administrados pelo Consórcio Porto Novo – leia-se Odebrecht, OAS e Carioca Engenharia.

Os serviços públicos de coleta de lixo, iluminação pública, limpeza, trânsito e pavimentação (não se espantem se no futuro a segurança pública engordar essa lista) foram presenteados às empreiteiras, sem que fossemos consultados sobre a privatização desta porção histórica do território carioca.

Horror maior ainda acontece no Morro da Providência, onde na penumbra da noite a Secretaria Municipal de Habitação marca as casas que serão demolidas para dar lugar a tenebrosas transações, em artimanha digna dos nazistas contra os judeus.

Desde já, é fácil antever o legado de Paes: uma cidade perversamente privatizada, cara e que não respeita a ampla parcela de sua sociedade que comete o “crime” de não ser integrada, como os negócios que ele proporciona, à especulação internacional.

 

Carlos Tautz é jornalista e coordenador do Instituto Mais Democracia – Transparência e Controle Cidadão de Governos e Empresas

Fonte: Perrone, 15/10/2012

“Se existem recursos públicos para a realização de eventos esportivos internacionais – Copa do Mundo e Olimpíada – é certo que o Estado Brasileiro conta com recursos suficientes para aplicar na saúde de seu povo”.

A afirmação acima faz parte de sentença que condena a prefeitura de Guaratinguetá, no interior de São Paulo, a fornecer gratuitamente remédios para uma mulher que sofre de asma. Ela foi publicada nesta segunda no Diário Oficial do Estado.

Arion Silva Guimarães, juiz da 3ª Vara Cível da cidade, assina a decisão em primeira instância. Ele rejeitou tese da prefeitura de que a responsabilidade seria do Governo do Estado.

A argumentação do magistrado joga luz num tema que parece adormecido: a relação entre os gastos públicos nos dois grandiosos eventos e as necessidades da população.